A importância de compreender a saúde

A importância de compreender a saúde

Atualmente as transformações sociais e as transformações dos sistemas de saúde buscam um modelo mais colaborativo e participativo das pessoas, no qual possuem mais acesso às informações e fazem escolhas a respeito da sua saúde. Essa participação dos cidadãos, como parceiros do sistema e dos profissionais de saúde, nas tomadas de decisão dos processos de saúde é cada vez mais reconhecida.

As mudanças são resultados da promoção do tema Health Literacy (HL) ou literacia em saúde.

O conceito de Literacia em Saúde é definido de diversas formas, desde que surgiu em 1970, mas em 2012 a OMS e o Consórcio Europeu para Literacia em saúde definiram como:

   A Literacia em Saúde está ligada à Literacia e incluem os conhecimentos, motivações e competências para concordar, compreender, avaliar e aplicar informação sobre saúde, de modo a fazer julgamentos e a tomar decisões sobre cuidados de saúde na vida cotidiana, assim como para prevenir a doença, promover a saúde e manter ou melhorar a qualidade de vida durante o ciclo de vida.

Com isso, a Literacia em Saúde influencia a saúde das pessoas, assim como a segurança e a qualidade dos cuidados de Saúde.

Em 2016, a OMS elegeu o assunto como principal fator chave na promoção de saúde e é citado em estudos como o sexto sinal vital da saúde.

Num contexto onde crescem as doenças crônicas e as fontes de informação em saúde, olhar para como as pessoas interagem com as informações e como os profissionais de saúde explicam de forma que facilite o entendimento dos pacientes é fundamental para a eficiência e eficácia de tratamentos.

Entender saúde pode influenciar significativamente o prognóstico e a qualidade de vida de um paciente. Pode se dizer que o limite da Saúde vai até o limite da compreensão das pessoas.

A habilidade de compreender saúde envolve um conjunto de 4 fatores principais citados na figura abaixo:

Figura 1

Conhecimento cultural e conceitual de saúde

Possuir conhecimentos sobre saúde permite a busca pela vida saudável que terá como conseqüência a prevenção de doenças e o auto-cuidado que é influenciada pela educação, pela família, pelo ambiente de trabalho, pela comunidade, pela comunicação social.

A figura 02 cita importantes membros da sociedade capazes de interferir no conhecimento em saúde das pessoas.

Figura 2

Qualquer situação que a pessoa se envolve com informações em saúde se inclui no contexto de saúde:

  • Ouvir orientações na consulta,
  • Comprar e comparar alimentos,
  • Assistir programas de saúde na TV,
  • Achar informações na internet e julgar se são confiáveis ou não,
  • Escolher um plano de saúde,
  • Escolher, junto a profissionais de saúde, o tratamento a ser seguido em doenças crônicas, etc.

Grande parte deles é permeada por medo ou stress, pois suas decisões impactam na qualidade de vida e os últimos anos, com o grande número de drogas, exames e possibilidades terapêuticas, o cuidado em saúde ficou complexo.

Ninguém é totalmente literato em saúde. Mesmo em casos como de um profissional de saúde, que inicia um tratamento de uma nova doença, ele pode não dominar o assunto e também necessitará de atenção, orientação e informações sobre a doença.

Quanto melhor a relação de uma pessoa com sua própria saúde, melhor suas habilidades de Health Literacy (HL) e menor os sentimentos de medo ou stress.

Saber falar e ouvir sobre saúde

No processo de comunicação os profissionais de saúde são canais entre os estudos científicos e as pessoas que buscam esse conhecimento.

Porém, infelizmente, estudos mostram que profissionais de saúde superestimam o que pacientes entendem de fato do que lhes foi apresentado.

Diante disso, o tema Health Literacy ajuda a construir uma saúde verdadeiramente mais efetiva e humana.

Para que isso ocorra de maneira natural, deve-se deixar de lado a imposição de padrões, até mesmo no aprendizado e entender cada paciente para que a comunicação aconteça de maneira efetiva e agradável com cada pessoa.

Uma das principais barreiras na comunicação está relacionada à dificuldade dos pacientes em falar abertamente com profissionais de saúde. Por isso é fundamental criar um ambiente de confiança.

Saber lidar com as informações para tomarem decisões adequadas sobre sua saúde envolve diretamente à interação entre profissionais, pacientes e instituições de saúde.

A Literacia em Saúde é influenciada por fatores individuais e de quem dissemina informações. Na figura 03 alguns exemplos:

Figura 3

Com isso independente do nível do conjunto de habilidades cognitivas e competências sociais que uma pessoa tenha, ela encontrará barreiras em sua jornada de saúde. Navegar no atual momento pela saúde envolve usar muitas capacidades. As informações estão lá, mas existe a dificuldade em decifrá-las.

A escuta ativa é uma habilidade, é ouvir com atenção, e mostrar que está atento. No cuidado em saúde, é importante para quem fala saber que as suas queixas estão sendo acolhidas e levadas em consideração.

Quando falamos da comunicação verbal os principais problemas relatados são:

  • Explicação inadequada do diagnóstico e do tratamento,
  • O paciente relata se sentir ignorado.
  • O profissional ignora ou não entende a visão do paciente e dos familiares.

Abaixo na figura 04 alguns pontos que auxiliam na comunicação verbal:

Figura 4

Quando se fala em habilidades de HL para profissionais de saúde, existem técnicas validadas para aumentar o entendimento dos pacientes. As duas mais faladas são:

  • Teach-back (técnica pingue-pongue): Avalia o que a pessoa compreendeu do que foi passado sem causar constrangimento, consiste em pedir para a pessoa explicar com suas próprias palavras o que foi ensinado.
  • Ask-me 3 (3 perguntas para mim): Essa técnica encoraja a pessoa a perguntar, e o profissional a responder, são três perguntas básicas:
  • O que eu tenho?
  • O que eu devo fazer? (em relação ao meu problema)
  • Por que é importante para mim fazer isso?

Com isso certamente os pacientes estarão melhores informados e engajados em seus problemas de saúde tornarão possível uma melhor adesão aos tratamentos e uma saúde de qualidade.

Levando-se em conta o que foi observado, os pontos 3 e 4 que fazem parte do conjunto de habilidades para compreender saúde, também estão diretamente ligados à necessidade de construir competências e capacidades de literacia em saúde ao longo da vida em busca de uma vida saudável.

Conseguir filtrar, julgar e apreciar informações de saúde afim de conhecer riscos de se contrair uma doença e maneiras de tratar uma doença, raciocinar sobre exames de diagnósticos, consumo de alimentos e uso de medicamentos certamente auxiliará nas tomadas de decisão de saúde.

De maneira concreta a adesão da adoção de uma dieta alimentar saudável, das ações para prevenção do câncer de pele, de mama ou de próstata, do desenvolvimento de competências de primeiros socorros, de saber procurar na internet ou em outros meios, informações sobre Saúde aproxima as pessoas da promoção de Saúde para melhorar a qualidade de vida.

Daniela Faria – Farmacêutica – CRF/SP 51.617 / Gerente de Segurança do Paciente – Opuspac

Rastreabilidade de Medicamentos: desafios e impactos para a cadeia da saúde

A constante prática de falsificação de medicamentos e roubos de carga, fez com que a ANVISA criasse uma legislação específica para controle dos medicamentos em todo território Nacional. De 2007 à 2011 foram coletados dados pela ANVISA que em conjunto com o Departamento de Polícia Federal, concluiu-se que 10% dos medicamentos vendidos no país eram falsos.  Em 2009 foi publicada a lei 11.903 determinando a criação do Sistema Nacional de Controle de Medicamentos (SNCM), desde a produção até o consumo. O rastreamento de medicamentos será por meio de tecnologia de captura, armazenamento e transmissão eletrônica de dados, dos produtos farmacêuticos em todo território nacional.

A lei não atinge as necessidades de segurança da rastreabilidade hospitalar, porém, será um avanço importante na segurança de toda a população que faz o uso de medicamentos em farmácias, drogarias e hospitais.

Todas as embalagens secundárias dos medicamentos, devem possuir o código GS1 DataMatrix, tornando obrigatória informações como, IUM (identificador único de medicamento) que agrupa o GTIN (Número Global de Item Comercial), número de registro na ANVISA, código serial, lote e validade. Esses dados devem estar diretamente relacionados ao registro de produto na ANVISA e CNPJ da empresa detentora do registro do medicamento.

As movimentações de medicamentos ao longo da cadeia de produtos farmacêuticos podem ocorrer de forma agregada, para isso foi criado o código, IET (Identificador de Embalagem de Transporte), quando um ou mais IUM estão acondicionados em uma embalagem de transporte.

A RDC 157/2017, definiu os membros da cadeia de movimentação de medicamentos do SNCM e os papéis que cada um deve desenvolver:

  • Detentor de Registro (Indústria);
  • Distribuidor,
  • Transportador
  • Dispensador (Drogarias, Farmácias e Hospitais).

Os papéis podem variar a depender da instância de evento sendo comunicada.  

Cada membro da cadeia de movimentação de medicamentos é responsável por transmitir ao banco de dados todos os registros a respeito da circulação dos medicamentos sob sua custódia.

Para que o sistema siga corretamente os processos da cadeia horizontal (indústrias, distribuidores, transportadores, drogarias, hospitais) a sincronização e alinhamento dos dados entre os sistemas das empresas, irá assegurar que as informações atualizadas aumente a exatidão dos dados entre as empresas com a ANVISA, em busca da harmonia de processos com implementações bem sucedidas, para que os impactos do sistema de rastreabilidade sejam menores, além de menos erros de movimentação que possam gerar anomalias.

Para isso os softwares dos comunicadores devem estar aptos para montar e desmontar os Identificadores de Embalagens de Transportes (IET), Identificadores Únicos dos Medicamentos (IUM) pois o método de comunicação com a ANVISA será único.

Os softwares das empresas deverão estar hábeis até 01/05/2022, quando iniciará o Sistema de Rastreabilidade no Brasil. A sincronização e alinhamento dos dados entre os sistemas das empresas assegura que as informações atualizadas aumentem a exatidão dos dados entre as empresas, com objetivo de criar e consolidar padrões globais para alcançar a harmonia de processos com implementações bem-sucedidas, garantir a eficiência da cadeia da saúde e a segurança dos pacientes. 

 As áreas de Tecnologia de Informação e de logística devem estar envolvidas nas necessidades de alterações e implantações para o novo sistema.

O grande desafio a ser vencido no projeto de rastreabilidade, para as empresas envolvidas, é a revisão dos processos internos de cada uma e a definição dos equipamentos corretos para ajudar na coleta dos dados e na qualidade dos serviços, diminuindo a taxa de erros e retrabalhos. Com isso a identificação dos erros será melhor e de mais rápida alteração de estruturas quando necessário.

O movimento de rastreabilidade é global e segundo especialistas no assunto o Brasil tem o melhor nível de sistema de rastreabilidade a ser inserido. Ele propõe a rastreabilidade também do meio da cadeia para garantir a segurança, pois rastreando apenas as pontas, um erro pode permitir que o medicamento impróprio seja colocado no mercado e vendido para consumo.

A implantação da Rastreabilidade dos medicamentos com o uso de códigos de barras é mais seguro além de:

  • Agilidade no processo de dispensação, com a baixa de estoque on-line;
  • Histórico do lote do medicamento desde o recebimento ao momento em que é utilizado pelos pacientes;
  • Garantia da dispensação de medicamentos em condição de uso, havendo bloqueio de dispensação de lotes interditados ou vencidos via sistema;
  • Agilidade na localização de produtos interditados para recall.
  • Importante ferramenta para a obtenção de certificações das procedências dos medicamentos.

PROJETO PILOTO

Em abril 2017 a ANVISA e o GAESI/HCFMUSP (Associação de pesquisadores da Escola Politécnica de SP e da Faculdade de Medicina de SP, que trabalham com projetos de inovação e junto com a ANVISA, definiram padrões tecnológicos e regras de negócio que serão usados no SNCM) firmaram convênio para o desenvolvimento de um Projeto-Piloto de rastreabilidade de medicamentos do SNCM.

De acordo com Vidal Augusto Zaparolli, membro do grupo da GAESI, foi detectado no Projeto Piloto e no ambiente de teste, também disponibilizado pela ANVISA, que as equipes de movimentação devem exercer mais seus processos nesses ambientes, para quando o sistema iniciar não ocorram erros que poderiam ser sanados.

O Projeto Piloto possui um ambiente onde podem ser declarados eventos com os medicamentos, que varia de acordo com o cadastro das empresas na ANVISA.

Mas caso algo esteja errado na declaração, ela poderá ser REVOGADA ou SUBSTITUÍDA.

O projeto-piloto acompanhou, durante um ano, a cadeia de produção, distribuição e dispensação de medicamentos em locais pré-determinados. Em seguida foram avaliados os resultados e realizados os ajustes necessários na regulamentação do SNCM. E foram determinados três anos para implantação do sistema que será 01/05/2022.

De acordo com a ANVISA, as empresas da cadeia horizontal, desde já devem realizar mais testes no ambiente disponibilizado por ela e por isso manteve o ambiente aberto mesmo após a fase obrigatória.

Daniela Faria – Farmacêutica – CRF/SP 51.617 Gerente de Segurança do Paciente – Opuspac – SP